O vento bate na janela… o barulho desperta do sono profundo, do sonho da realidade… O balde de água fria dissolve os últimos pensamentos e lembranças do bom sonho. Boceja, veste, abotoa, penteia, perfuma. Desce as escadas e olha em volta: calmaria… uma calmaria irritante, uma calmaria imposta, uma calmaria indesejada… Prepara o ralo café, a necessidade para não ter fome ao longo da incrivelmente interminável manhã… no caminho dentro do carro, as gotas da chuva se dissipam quando atingem o para-brisa, e um pensamento intermitente retumba na cabeça como badalos de um sino de igreja: O que eu estou fazendo da minha tão curta vida?… As lágrimas brotam sob a íris, a música o faz lembrar… a lembrança o remete a mais lembranças, como um teia tecida pela aranha da memória… uma teia de lembranças interligadas pela memória calejada, pedaços vazios, afinal a memória não é tão boa assim como outrora… Uma buzina, um farol fazem lembrar de que a vida está sempre por um fio… Esse fio intermitente entre o desconhecido escuro absoluto e a realidade… Mais um fio para a teia, distinto, porém semelhante… a lembrança da vida… lembrança, lembrança, lembrança… é só o que resta agora, e que o atinge direto no peito ao olhar para o lugar de repouso, onde agora jaz apenas as marcas deixadas através dos anos… Labuta, escreve, posta, finaliza, envia… vai embora… mais um item da rotina diária riscado do caderninho… e as lembranças reluzem como “neon” diante dos olhos… na volta pra casa, olha novamente para o jazigo de marcas e as lágrimas entornam de vez, sem necessidade para composturas e convenções…. as lágrimas caem no chão como as gotas de chuva tamborelando no para-brisas do carro… formam a poça de saudade… lava, enxuga, penteia, veste, arruma… deitado na cama fecha os olhos ainda acordado, repassando todo o seu dia mentalmente… “realmente ele não tem muito mais graça”…. adormece, sonha… e no sonho ele vem correndo, no mais perfeito estado de saúde… mental e corporal, pra matar um pouco a saudade, como sempre foi… sincero, irreverente, manso, bobo e alegre…
18 mai